Durante os ciclos, são realizadas vivências que extrapolam o campo do audiovisual para pensar as possibilidades de invenção e fabulação a partir do espaço. Os convidados para guiar o encontro são artistas ou pesquisadores que experimentam práticas atravessadas por temáticas já trabalhadas e propõem ações coletivas que estimulam a produção artística.

Vivências

Brincar com o Cinema

 

Vivência do Ciclo “Brincar”

Mulungu, CE – Sítio São Roque

2 de janeiro de 2019

Neste dia, buscamos exercitar a fabulação, a partir de um jogo com as palavras, de um novo olhar para as nossas imagens e da experimentação com os sons e instrumentos produzidos por nós.

Relatos dos convidados:

“A partir de um exercício de decupagem que foi proposto aos alunos e alunas, pedimos que trouxessem alguns materiais para que pudéssemos trabalhar a montagem ao vivo na sala de aula: cada um deveria trazer uma sequência de planos, imagens e sons, que poderiam ser gravadas nos seus próprios telefones celulares, juntamente a decupagem dessa sequência escrita em forma de tabela, trabalhada com eles em aulas anteriores.

Num primeiro momento fizemos uma exibição coletiva de todo o material que eles trouxeram para que todos soubessem que materiais estariam disponíveis pra gente trabalhar depois. Aqui era um momento de todos nós nos familiarizarmos com esse material, tecer nossos comentários, fazer perguntas… um momento rico de troca e fortalecimento dos laços.

Depois de conhecer os materiais que seriam trabalhados, essas sequências foram fragmentadas em planos soltos e tiveram seus áudios originais também separados para que pudéssemos alargar as possibilidades de articulação entre eles.

Para cada aluno e aluna que trouxe imagens e sons, foi pedido que escrevessem a descrição dos planos e cenas que trouxeram em papel transparente para que pudéssemos trabalhar com as palavras e frases no retroprojetor, que funcionaria como cartela das cenas que iríamos criar com todos esses fragmentos. Feito isso, cada um recortou todas as palavras que escreveu na transparência e criou-se um banco de palavras onde cada grupo escolheria algumas pra começar a recriar as cenas.

O dispositivo era o seguinte: a turma era dividida em grupos de no mínimo quatro integrantes e dentro do grupo eles escolheriam quem ficaria responsável pela trilha sonora e quem ficaria responsável pela montagem das imagens. Juntos eles criaram o roteiro do que eles apresentariam, cada grupo selecionou 10 palavras do banco de palavras e criaram um poema/cartela/roteiro a ser desenvolvido por eles em imagens e sons.

A equipe responsável pelo som se reuniu em grupo com o facilitador local e a partir da junção e do manuseio de simples elementos como embalagens e outras coisas coletadas e trazidas por eles, criaram uma série de objetos sonoros que fariam a sonoplastia das cenas.

Para os integrantes que ficaram responsáveis pelas imagens estavam disponibilizados dois projetores de vídeo e o retroprojetor onde eles apresentavam seus poemas. A proposta de ter mais de um projetor visava a experimentação da espacialização das imagens dentro de um espaço, a combinação, justaposição e sobreposição de imagens criando outras camadas de significação para a experiência e para o manuseio desses materiais.

Ao final cada grupo ensaiava sua apresentação, som e imagem juntos e apresentava o que havia criado uns pros outros.

Foi muito especial este encontro, dentro de uma comunidade que pela sua localização distante dos centros urbanos, distante da experiência de assistir filmes no cinema e que vem construindo sua vivencia de cinema através da tv e do celular, o que experimentamos foi expandir a percepção de como podemos construir imagem, combinar, sonorizar e projetar nossas idéias.

Gratidão pelo convite.”

 

Thaís de Campos

facilitadora convidada

“Fiquei muito feliz com o convite que foi me feito para realizar uma atividade de musicalização com os jovens que participam deste projeto, a proposta foi pensada de forma a ser integrada com a atividade de cinema ao vivo realizada pela queridíssima amiga e profissional Thais Campos, depois de um encontro muito produtivo onde decidimos como se daria essa integração, o lugar escolhido para a realização da atividade foi o Sitio São Roque na cidade de Mulungu, lugar lindo e cheio de historia e com varias atividades de manutenção da atividade de produção de café orgânico, o ambiente escolhido favoreceu muito o desenvolvimento das atividades, como teríamos apenas um encontro para a realização da atividade optamos por fazermos atividades que fossem o mais prática e dinâmica possível, em tão a partir do material já trabalhados pela turma em atividades fizemos atividades de construção de pequenos roteiros usando o material que já estava em mãos, sempre associando as imagens aos sons que poderiam associar -se as imagens, dessa forma cada grupo construiu um roteiro baseada nas imagens disponíveis e já prevendo os sons que poderiam compor a sequência, diante de cada necessidade cada grupo construiu o seus brinquedos sonoros para atender as necessidades de cada montagem, usamos para isso materiais recicláveis tais como: garças PET, pedaços de madeira, pedaços de cano de PVC, tampas de garrafas, bexigas e muitos outros matérias que eles próprios trouxeram para a oficina, depois cada grupo fez a sua montagem de imagens e construiu os instrumentos para fazer a sua sonoplastia, na última parte da oficina cada grupo de a sua apresentação ao vivo da sua montagem sendo tudo foi feito ao vivo a edição e a sonoplastia o resultado foi muito interessantes e mostrou a grande capacidade criativa dos jovens, tivemos muitas montagens interessantes e uma pro a de que com poucos materiais e com criatividade podemos construir produtos artísticos lindos, fiquei muito feliz com o resultado e com a oportunidade de contribuir para a formação artísticas dos jovens e também aprender bastante com eles, agradeço o convite e aproveito para parabenizar ao projeto Cinema do Brejo e os jovens participantes.”

Vanildo Franco

Músico, luthier e Arte educador.

Corpo em Ação

 

Vivência do Ciclo “Trabalho”

Brejo Uirapuru, CE – Associação dos Moradores

23 de fevereiro de 2019

Durante o encontro, nos colocamos em movimento, a partir de exercícios com o corpo que investigavam os gestos e inventavam formas coletivas de habitar o espaço.

Relato da convidada:

“Cinema no Brejo é um convite para dialogar, caminhar com as diferenças, perceber nossa potência e se potencializar com as vivências compartilhadas, abrir bem os olhos, preparar os ouvidos, colocar a mão na massa, refletir nosso tempo coletivamente, apreciar e aprender também com outras pessoas que vivem no Brejo e nas suas redondezas, afetividade, diversão, maratona de atividades, criatividade, esforço, empenho, suor, rotas, conhecimento e fortalecimento da juventude que é tão inspiradora e cheia de garra. Enfim, uma oportunidade ao encontro planejado e regado com carinho e atenção para nos abastecermos da troca riquíssima que é vivenciar vários mundos e modos para se viver juntos.”

Nataly Rocha

Escutar o Entorno

 

Vivência do Ciclo “Trabalho”

Brejo Uirapuru – Baturité, CE e Mulungu

Associação dos Moradores e Sítio do Marcos Arruda

23 de março de 2019

Durante o primeiro momento da vivência, conversamos um pouco sobre a formação do som e seus aspectos físicos, como frequência sonora, ondas sonoras, paisagem sonora etc. Realizamos vários exercícios de escuta, atenção e percepção dos sons que nos cercam no espaço. Cabra Cega, percurso sonoro, escuta ativa. No segundo momento, partimos para o sítio do produtor de café Marcos Arruda, onde fizemos uma caminhada sonora e exercício de gravação dentro do cafezal.

 

Convidados:

Vivi Rocha (Fortaleza – CE)

Eric Barbosa (Fortaleza – CE)

Marcos Arruda (Mulungu – CE)

Relatos dos convidados:

“A oficina foi ministrada em parceria com Eric Barbosa e começamos falando sobre a formação do som. Introduzi sobre a escuta humana em Hertz e a potencialidade da reverberação das frequências sonoras no corpo humano, entendendo o som como matéria. Tentamos encontrar uma linguagem acessível aos adolescentes e sem deixar de falar dessa parte teórica que considero a base poética para chegar na prática. Depois Eric seguiu adentrando a parte mais técnica sobre a descrição e funcionamento dos equipamentos. Os alunos falaram sobre que sons tinham escutado no caminho de casa até a escola e que sensação os sons traziam. Mostramos alguns sons, desde sons do corpo até sons do espaço sideral, para eles acessarem o lugar da escuta e conversamos um pouco sobre as sensações. Depois fizemos um exercício prático de escuta, onde ficamos 10min somente entregues ao ouvir. Depois alguns falaram sobre a experiência. Em seguida fomos fazer umas captação prática para eles terem contato com os equipamentos. Cada aluno gravava em torno de 3min. Foi um momento que começou a chover muito, então temos bastante som de chuva. E para finalizar a aula fizemos mais um exercício prático da cabra cega. Onde um aluno era vendado e os outros faziam ruídos que, esse vendado, tinha que encontrar a direção. Eles se divertiram muito em perceber que nem sempre o som que ouviam vinha da direção que eles pensavam vir. Para assim se entender na prática que as ondas sonoras se propagam em várias direções, são tridimensionais e como podemos focar na captação de acordo com os desejos e necessidades, mesmo com a massa da sobreposição de diferentes camadas sonoras que continuam ai existentes na ambiência. E conversamos um pouco sobre isso, de como os sons podem influir nas imagens e como eles podem usar dessas camadas sonoras ou dos sons de forma mais pontual para contar uma história.

A segunda parte da aula fomos a uma vivência no sítio do Marcos Café, produtor de café da região. Os alunos o ouviram e o entrevistaram sobre o processo do cultivo do café e captaram sons ambientes nas plantações onde Marcos levou a gente. Pessoalmente falando sempre é mágico sentir a conexão de alguns alunos que acessam esse campo mais sutil sonoro. Foi desafiador ter que encontrar estratégias para fazer com que eles não perdessem o interesse pela aula, pois a dispersão se instaurava facilmente por uma natural euforia deles. E o mais gratificante foi ouvi-los falar dos projetos de filmes que queriam fazer e que sons queriam criar ou captar. Tentamos deixar um pouco da inspiração que o ouvir pode trazer, e mesmo que não acessem tudo momentaneamente, sinto que em algum momento da vida de cada um esse dia, essa vivência, as conversas e os sons ouvidos serão acessados. A reverberação vai no corpo e ressoamos o que vivemos”.

Vivi Rocha

Marcos Café

Metodologia utilizada pelo facilitador para desenvolver os conteúdos programáticos:

 

Visita no Sitio Gaia Terra Renovada localidade de areias, trilha interpretativa em sistema de produção agroecológico roda de conversa, exposição de conteúdos teóricos, explanação sobre o processo de produção e beneficiamento do café sombreado do maciço de Baturité, os participantes poderão dentro do contexto explora os diversos sons da floresta e seus aspectos em uma dinâmica de captação de sons e interlocução em um ambiente natural, além da tomada de imagens que revelarão aos participantes outras formas de enxergar o ambiente a sua volta, os participantes fizeram varias perguntas sobre o sistema de produção e sobre as principais dificuldades para se mante na atividade nos dias de hoje, foi um momento bastante produtivo e de enriquecimento para todos, muitos dos jovens apesar de morarem na região, vem ao logo dos anos se afastando do meio rural muitos deles, com pouco contato com o campo, a atividade permitiu uma aproximação de gerações além de possibilitar varias intervenções por meio do áudio visual no sentido de registrar as belezas naturais e o aspecto humano dos homens e mulheres envolvidos nos sistemas de produção.

Conteúdo abordado: Vivencia cultivo do café, Manejo da produção realizado na área, agroecologia, adubação orgânica; sitio centenário na produção agroecológica com a cultura do café já tendo sido certificado como orgânico por cinco vesses, dentro do contexto proposto o sitio prioriza a segurança alimentar e nutricional, e uso da produção local como base da sustentabilidade.

DESENVOLVIMENTO DO ENCONTRO

O encontro iniciou com abertura de boas vindas em uma dinâmica de apresentação entre os participantes. Iniciamos com o histórico do sitio, relatado pelo facilitador, depoimentos, todos os participante poderão contribuir com suas experiências e conhecimento sobre o tema, tirando duvidas e sugerindo ações que possam avançar no processo de produção buscando maior conhecimento para sua melhoria. Retornamos para a fabricação e beneficiamento do café onde foi colocado para os participantes, que tratava do tema da produção agroecológica, de discussão teórica, com uma roda de conversa sobre a área visitada. Abrindo assim a temática da agroecologia, produtos orgânicos agroecológica e a necessidade do reconhecimento por parte da população.

Marcos Arruda

Olhar Através da Câmera

 

Olhar através da Câmera

Vivência do Ciclo “Trabalho”

Mulungu, CE – Sítio São Roque

16 de março de 2019

Durante a vivência, nos aprofundamos em algumas técnicas de fotografia e no aprendizado do manuseio das câmeras fotográficas. Como exercício, nos espalhamos pelos recantos do sítios São Roque para captar detalhes, texturas, objetos e elementos do espaço.

 

Convidado:

Cláudio Amaro (Guaramiranga-CE)

“Formação através dos cursos livres da escola de comunicação da Serra. Atua como fotógrafo e video-maker há mais de 10 anos. Vem experimentando as mais variadas linguagens audiovisuais, como documentários, eventos culturais e vídeos para mídias sociais. Na área da fotografia, participou de várias com vários profissionais, dentre eles Régis Capibaribe.”

Relato dos convidado:

“Dentre olhares por vezes curiosos e atentos os alunos do Projeto Cinema no Brejo

foram bastante receptivos na Vivência de Câmera para filmagem. Após revisão dos

conceitos básicos e fotometria, enquadramento seguido de exercício prático os alunos “ansiosos” soltaram a criatividade captando imagens pelos arredores do Sítio São Roque em Mulungu. Apesar do curto espaço de tempo foi tudo muito divertido e proveitoso.”

(Parabéns aos envolvidos pelo projeto Cinema no Brejo, sucesso nos trabalhos dos

alunos)

Claudio Amaro

Um Exercício de Montagem

 

Vivência do Ciclo “Terra”

Brejo Uirapuru – Baturité, CE e Mulungu

Associação dos Moradores

27/04 e 04/05/2019

Durante a vivência, reassistimos juntos as imagens que foram gravadas durante a realização dos trabalhos finais do curso. Cada equipe foi, a seu modo, pensando como dar forma a todo aquele material que tinham em mãos. Aos poucos, os filmes foi se constituindo.

Convidado:

Kiko Alves (Fortaleza – CE)

 

Relato do convidado:

Sobre uma experiência no Brejo

 

“…vou falar do riso que está no meio do sério, que ocupa o sério, que se compõe com o sério e que mantém com o sério estranhas relações; desse riso que dialoga com o sério, que dança com o sério; ou melhor, desse riso que faz dialogar o sério, que o tira de seus esconderijos, que o rompe, que o dissolve, que o coloca em movimento, que o faz dançar”

Jorge Larrosa in: PEDAGOGIA PROFANA

 

Sempre que sou convidado a está em espaços de formação e produção audiovisual, fora dos centros de produção e ou “grandes” pensamento sobre cinema, me deparo sempre com o encantamento e a potência dessa linguagem, o quanto apesar das críticas ao “mecanismo cinema”, ela é eficiente no que tange a processos formativos, na rapidez com a qual ele pode ressignificar realidades, projetos de vida, afetos; mais que produzir filmes o que experiências com cinema e educação nos possibilita são apontamentos sobre como reorganizar a realidade da educação, e ressignificar sentidos, afetos e modos de vê. Em dois finais de semana como tutor do módulo de montagem, no projeto Cinema no Brejo o que percebi em gestos tímidos, rostos de aparente apatia, alguma desconfiança, e muita vontade do novo, foram jovens tentando contra todas as contradições escreverem uma nova histórias para si, e nesse processo os encontros aos finais de semana para vê filme, conhecer novos tutores, dialogar fora das retóricas costumeiras, convoca esses jovens para um jogo de encantamento e vislumbrar saídas, e esse a meu ver deveria ser um dos objetivos de qualquer processo formativo, criar condições para o aprendizado para além do que está sendo dito; esse processos precisam investir em encontros, trocas por que afinal a educação não se faz de forma estática, e sim no movimento, nas risadas em sala de aula nas tirações, e também no aprendizados de conteúdos que não precisam chegar vestidos de cinza e com carrancas pesadas, o que vi no Cinema no Brejo foi uma possibilidade, um modo de a educação atuar, leve, sorridente, gostando do encontro, das barulhos e das nuances de cada pessoa envolvida no projeto.

Imagino que afinal deve ser disso que a educação e ou qualquer processo formativa deva ser feito, de encontros com todas as complexidades existentes em cada uma das subjetividades que ali estão, todas as contradições que são próprias não só da idade mas da condição humana, acredito cada vez mas que a sala de aula é por excelência o lugar das tensões, de grandes debates, das contradições, são nesses espaços que aprendemos o sentido de está juntos e respeitar a diferença, e sobretudo nesses tempos de asfixia do pensamento e da liberdade de professores em sala de aula o cinema do Brejo aponta para uma educação libertária, onde o pensamento voa, os desejos fluem, e nos risos em sala, algum estado de desatenção e o som de carros que sobem para vistosa e desigual Guaramiranga, criamos no meio de tudo isso uma possibilidade, expandimos alguns olhares e afetamos muitos e afinal não é disso que a educação também é feita? Acabo falando a esses jovens, que apesar da imensa dificuldade que lhes são imposta, estudar e lutar pelas suas subjetividades nesses tempos, é sem dúvida o maior ato revolucionário possível.